Geral

A cura de todos os males – parte 3

Está é a última parte desta série, e pode ser chamada de…

Mais 6 motivos pelos quais você acredita que seu tratamento alternativo preferido funciona (mesmo que não seja verdade)

Nós temos que cobrir muita coisa, então vamos lá.

O Efeito Placebo
Em suma, esse é o nome dado à melhora observada que se sabe que não pode ser atribuída a nenhum tratamento, tido como um “empurrão” que as capacidades curativas do organismo recebem por um motivo qualquer. Ele pode ser facilmente desencadeado por tratamentos falsos, como pílulas sem substâncias ativas, e é usado como base de comparação nos testes clínicos de medicamentos para que se possa distinguir a eficácia real que a substância testada tem em contraste com o percentual de melhora que pode ser esperado pela mera ilusão de tratamento.

É um fenômeno complexo, e apesar de ainda não ser inteiramente compreendido, sabe-se que as expectativas de melhora do paciente são muito importantes em sua ativação. Por exemplo, pílulas de “farinha” grandes ou coloridas são mais “eficazes” do que pílulas menores e brancas com o mesmíssimo conteúdo. Mas não é só a expectativa consciente do paciente que faz diferença.

O cérebro de qualquer ser vivo é uma máquina de detectar padrões. Se um adulto, bebê ou animal ficar doente, passar por uma série de situações, e melhorar depois disso, há uma boa chance de que seu cérebro vá associar essas situações com o fim da doença. Assim, da próxima vez que ele ficar doente e seu cérebro começar a reconhecer, inconscientemente, as situações envolvidas na doença passada, isso poderá desencadear o Efeito Placebo e ele poderá melhorar de novo, mais uma vez sem ligação com tratamento algum. E cada vez que isso acontecer, a associação entre doença-situações-melhora ficará mais forte, e o efeito placebo mais “eficaz”.

Este é um ciclo cujo princípio básico é ilustrado no condicionamento clássico — daquela história dos cachorros que passaram a salivar com a mera expectativa de receber comida; expectativa essa que podia ser associada a qualquer evento.

Substitua “salivar” por “melhorar” e “comida” por “mijo” e está aí todo o fundamento da Uroterapia. Troque “mijo” por “bolinhas de açúcar” e já temos Homeopatia. Tente, é divertido!

Acima, Dragon Ball Z Reiki.

Além disso, mesmo bebês e animais sentem quando estão sendo bem cuidados (mais especificamente, seus cérebros e organismos detectam os estímulos positivos envolvidos e reagem de acordo). Quando estão doentes, eles geralmente recebem mais carinho e atenção, repousam mais e se alimentam melhor, etc. Tudo isso já faz bem por si só (seus indicadores de estresse diminuem de atividade, eles secretam mais endorfinas, entre outros fatores biológicos). Mas quando, além disso, esse processo se torna instintivamente associado ao ciclo doença-situações-melhora, não fica difícil reconhecer aí um padrão que contribui para uma cura que pode ser atribuida a um tratamento inerte qualquer que simplesmente acontece de estar sendo aplicado ao mesmo tempo.

Crédito seletivo
Hoje em dia, a maioria dos “profissionais” de terapias alternativas posicionam o que fazem como terapias “complementares”, que podem ser seguidas em conjunto com tratamentos convencionais sem interferir com eles, ou mesmo aumentando sua eficácia de alguma forma não especificada (mas que curiosamente nunca atrapalham o tratamento oficial).

E quando a pessoa fica boa fazendo uso de dois tratamentos, a qual deles vai atribuir a melhora?

a) Ao tratamento com efeitos colaterais prescrito por um médico apressado e impessoal num consultório frio e estéril com cheiro de éter;

b) Ao tratamento 100% natural e sem contra-indicações prescrito pelo médico atencioso que a ouviu com paciência e empatia num consultório aconchegante com cheiro de ervas.

Se você escolheu a alternativa a, bem-vindo: você deve ser novo nesse mundo.

Eu sei, amiguinho, mas não é assim que a gente funciona.

Sem contar que as pessoas muitas vezes resolvem procurar tais tratamentos quando já estão insatisfeitas com o tratamento que vem recebendo. Seja porque tem efeitos secundários desagradáveis (esse é um risco que se corre quando você bota substâncias que realmente tem algum efeito pra dentro do corpo. O efeito não será 100% positivo 100% das vezes.) ou porque a melhora está demorando mais do que elas gostariam.

Em ambos os casos, talvez tudo que elas realmente precisavam era de uma dose de paciência. Por exemplo, práticas de eficácia comprovada, como quimioterapia (vigie os comentários pra ver bebedores de urina defendendo o contrário), tipicamente fazem o paciente sentir-se terrível durante o tratamento, e continuam agindo por algum tempo após o fim da terapia. De forma que mesmo um tratamento quimioterápio bem sucedido, imediatamente após seu término, ainda pode deixar um paciente com tumores que só desaparecerão totalmente algumas semanas mais tarde, que é quando o paciente deve estar se sentindo melhor.

Caso um paciente procure tratamento ou alívio em terapias complementares após o término da quimioterapia, terá assim motivos mais do que suficientes para atribuir a eles essa melhora percebida. O jornalista John Diamond comentou essa situação em seu livro Snake Oil, onde divulgou sua investigação por terapias alternativas quando ele mesmo foi diagnosticado com câncer:

Usando essa mesma lógica eu poderia dizer que minha terrível quimioterapia não teve nenhum efeito no meu câncer, mas que seis semanas depois de ela haver terminado, e graças à minha dieta de Build-up (um milkshake nutritivo da Nestlé), Stolichnaya (vodka russa) e charutos Havana, eu me senti cem vezes melhor do que quando fazia quimioterapia, e que ao passo que ainda demonstrava ter alguns tumores ao fim do tratamento, no fim da fase de milshake, vodka e fumo eu estava curado.

Em casos como esses as pessoas ainda tem o tratamento convencional pra salvar a pele delas. O problema mesmo se dá quando terceiros ficam impressionados por depoimentos de ex-pacientes equivocados e resolvem abdicar completamente do tratamento real em favor de um fajuto.

GENTE EU JA TO DE SACO CHEIO E A ESSA ALTURA ACHO QUE NAO TEM MAIS NINGUEM LENDO ENTAO AGORA VAI SÓ OS RESUMAO (VALENDO NOTA

Males psicossomáticos
Você nem tava doente de verdade, otário.

Alívio de sintomas confundido com cura
Tratamentos alternativos podem proporcionar alívio de dores e desconforto por motivos psicológicos ou secundários à causa real do problema, que permanece intocada. Mas como os sintomas aparentemente se foram, as pessoas julgam ter sido curadas.

Diagnóstico errado
Médicos não são perfeitos, e muito menos você, com essa mania de se auto-diagnosticar e medicar (sem educação médica apropriada). Você pode estar fazendo um tratamento convencional equivocado e, quando resolve mudar pra um alternativo, dar a sorte de o problema ter se resolvido sozinho.

Você está se enganando
Existem vários mecanismos conhecidos que influenciam nossa interpretação da realidade para que possamos preservar uma crença que nos é importante.

Por exemplo, para muitas pessoas, uma modalidade de tratamento médico é apenas parte de uma visão de mundo muito mais complexa e integral à sua personalidade. Pode englobar, em um pacote que faz o mundo e a vida terem sentido para elas, conceitos como integridade corporal, imortalidade da alma, justiça metafísica, etc. Nessas condições, admitir que um tratamento é ineficaz colocaria em risco tudo que acreditam sobre tudo o mais. Por isso, é comum que insistam em tratamentos ineficazes para proteger sua paz mental, e se convençam a acreditar que se encontram em situação melhor do que estão, na verdade.

Pra isso eu me contorço.

Conclusão
Muito, muito mais poderia ser escrito a respeito desse assunto; principalmente este último ponto; e quem sabe eu venha a revisitar o tópico no futuro. O mais importante a se ter em mente é que distinguir relações reais de causalidade entre tratamento e resultado requer não apenas observações doentiamente controladas, mas também abstrações sistematizadas de um grande corpo de informações variadas. Nenhuma pessoa comum está apta a fazer isso, e “profissionais” de terapias alternativas geralmente não se preocupam em fazê-lo.

Portanto, as observações de que um tratamento qualquer “funciona pra mim” raramente são válidas, pois não há maneira de se ter a mais remota certeza que a pessoa está mesmo, objetivamente, melhor, e se tal melhora se deve realmente ao tratamento à que ela atribui a suposta melhora.

Assim, por mais que você julgue saber ‘o que funciona pra você’, considere que o que você tem como auto-conhecimento pode ser, na verdade, resultado de inúmeras falhas de raciocínio; algumas poucas ilustradas nesta série. E dê um pouco mais de crédito às pessoas que vivem pra fazer o que você e eu nunca teríamos condições de fazer direito, por conta própria.

Pelo mesmo motivo, não é a decisão mais sábia aceitar relatos pessoais isolados como evidência de eficácia de qualquer tratamento. Se você ficar impressionado com algum depoimento, lembre-se do caso da Dona Christy, e saiba que independente do problema e tratamento, relatos de curas extraordinárias sempre existirão; reais ou não. Nesses casos vale a máxima clássica do ceticismo:

Afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias.

E “funciona pra mim” não chega nem perto disso. ABS.

Leia mais (ou de onde eu roubei isso tudo):
Why Bogus Therapies Often Seem to Work
How ineffective treatments appear to work
Why Bogus Therapies Seem to Work
Popular medical fallacies
Spontaneous Remission and the Placebo Effect
Tricks Of The Mind

Bônus:
How magic-based medicine thrives

Esse post está em Geral . Salve o permalink.

11 comentários Postar um comentário ou enviar um trackback.

  1. Bernardo Zirpoli, 12/4/10

    oloco ri tanto que fiquei sem ar agora tou tonto, vou ali beber minha própria urina pra melhorar flw

  2. ma_b, 12/4/10

    PUBLIDIETORIAL DA UNIMED kkkk

  3. manoel, 12/4/10

    lindo! a leitura desse artigo acabou de curar minha bronquite: recomendo a todos em doses homeopáticas.

  4. aecio, 12/4/10

    eu li até o fim. #perguntei

  5. J, 12/4/10

    Não confie em quem consegue chupar o proprio pau.

    Vide img do senhor mais acima.

  6. marocs, 12/4/10

    oloco minha aids tava aqi kd~

  7. miyadzu, 12/4/10

    um texto muito grande dividido em 3 partes com algumas palavras difíceis também é uma tática de alguns blogueiros para tentar transformar alguma pauta/texto em algo genial aos olhos das pessoas (?)
    seria isso também um ‘placebo’?
    estamos de ooolho…

  8. Tiago Abrahão, 12/4/10

    VALEU NOTA…. 10

    UNIDOS DA TIJUCA

  9. Danilo Miranda, 13/4/10

    QUANDO COMECEI A LER O TEXTO TAVA DE BOA E AGORA NO FIM DO TEXTO TO COM VONTADE DE MIJAR INCRIVEL SEU TEXTO TEM CAPACIDADE DE URÉTICAS

  10. ESSE TIRO TEM QUE SAIR PELA CULTATRA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    kkkk zuera galero

  11. nana, 17/6/10

    Adorando cersibon, agora me vem com ciência! casa comigo

Deixar um comentário

*
*

Os campos obrigatórios estão marcados com *

Acompanhe os comentários pelo feed RSS desse post.