Eu já planejava escrever sobre Homeopatia aqui, em algum momento, mas o caso recente dos pais que foram condenados por homicídio por terem “deixado sua filha morrer” ao tratá-la com homeopatia em vez de medicina “tradicional” trouxe o caso à atenção de pessoas que pediram que eu o abordasse logo.
Embora mortes decorrentes de não-tratamento médico em preferência de homeopatia estejam longe de ser um acontecimento raro, este caso foi especialmente dramático por se tratar de uma morte que já seria bem horripilante se tivesse acometido qualquer pessoa, mas que se tornou especialmente macabra por ter vitimado um bebê de apenas 9 meses de idade, que não teve nem liberdade de escolha sobre seu tratamento.
Sam é médico homeopata e tratou a filha sozinho, até que ela desenvolveu uma úlcera no olho esquerdo e foi levada a um hospital, dois dias antes de morrer . . . Quando morreu, Gloria pesava apenas dois quilos a mais do que quando nasceu, e seu cabelo, que era preto, havia se tornado branco. Sua pele estava coberta de feridas e ela sofria de uma infecção.
E esse evento tornou-se ainda mais digno de nota quando seus pais foram condenados por sua morte – e não por negligência, mas por quase-assassinato.
Vejamos então um pouco do que estava envolvido no caso.
Homeopatia: o homem e o mito
A Homeopatia alcançou sua popularidade inicial em um tempo em que a idéia de cura era provocar hemorragia e envenenamento por metais pesados; em que ainda não se sabia que lavar as mãos podia salvar vidas; em que medicina geral era praticada por barbeiros. Ou seja, em um tempo em que você tinha maiores chances de melhorar se não procurasse ajuda médica.
Em contraste, as pessoas que se tratavam com o alemão Samuel Hahnemann não costumavam morrer de infecção generalizada alguns dias depois da consulta. Qual era o seu segredo?
Em uma palavra: nada. Hahnemann não fazia absolutamente nada por seus pacientes. E isso, comparado com o que os outros faziam, já era muito.

Mais Zen que Buda.
Hahnemann baseava seus tratamentos em alguns preceitos fundamentais, o mais fundamental deles sendo o de que “semelhante cura semelhante”. Nesse momento você deve estar pensando que isso deve ser parecido com o princípio das vacinas: uma dose inerte de um agente patogênico é introduzida ao organismo pra ensinar seu sistema imunológico a lidar com o agente real, ativo, quando entrar em contato com ele. Como você é burro.
Na verdade, o que a “Lei dos Semelhantes” diz é que os sintomas apresentados por uma pessoa doente podem ser eliminados por substâncias que causam esses mesmos sintomas em uma pessoa saudável.
Oi.
Digamos que você esteja com diarréia. Que tipo de substância causaria diarréia em uma pessoa que não está com diarréia? Laxante. Logo, o remédio ideal pra sua diarréia seria um laxante.

Oi.
Não! Calma. Isso seria completamente imbecil. É aí que entra o segundo preceito mais importante da Homeopatia: a “Lei dos Infinitesimais”. Na prática, este princípio defende que quanto menor for a concentração de uma substância, mais poderosa ela é em combater seus próprios efeitos. (oi)

Agora sim.
Em outras palavras, uma substância que em certas concentrações causa certos efeitos, em concentrações “contrárias” causará efeitos “contrários”. Ou combaterá os efeitos que causa, ninguém sabe ao certo.
Em um Universo onde a Homepatia funciona, vejamos como esta lógica se aplica, por exemplo, à coniina; toxina responsável pelo poder venenoso da Cicuta:

Neste mesmo Universo, outra coisa maravilhosa ocorre: a água tem memória, e se “lembra” das substâncias com que manteve contato.
Infelizmente não é neste Universo que vivemos
Quando Hahnemann postulou que substâncias em concentrações diminutas eram capazes de provocar efeitos orgânicos, o físico italiano Amedeo Avogadro não estava por perto para avisá-lo que, conforme você dilui uma substância, em algum ponto a solução vai passar a não ter mais uma molécula sequer do princípio ativo original.
Princípios ativos são substâncias específicas selecionadas para interagir de forma específica com o que precisam interagir para causar o efeito específico desejado. A única substância específica em um remédio homeopático ordinário é H²O.

Solvente e medicamento universal.
Ao longo dos anos, defensores da Homeopatia fizeram várias especulações (cada uma mais mágica do que a outra) para explicar como é que pode uma porra dessas Batman: como pode água realizar o trabalho do ácido acetilsalicílico, nicotina, etanol, THC etc, só por ter entrado em contato com eles em algum momento?

Empatia?
Também não há explicação satisfatória sobre por que a água se lembraria dessas substâncias em particular e esqueceria todas as inúmeras outras com que entrou em contato durante seu ciclo eterno, que inclui temporadas em organismos doentes, exposição a radiação e férias em esgotos do mundo inteiro.
Alguns sugerem que a resposta pode estar nos processos de “dinamização” e “sucussão”. Esses consistem em diluir a substância em água por agitar o vidrinho de forma vigorosa e metódica.
Eu sei que pra qualquer pessoa racional essas batidinhas já parecem ser o bastante (não?), mas o fato é que se algo assim fosse provado, seria uma revolução para a ciência e indústria da Física de maior importância que a realização do movimento perpétuo, e um fato de maior impacto para a ciência e indústria da Química do que um alisador universal de cabelos.
Ok, mas nada disso quer dizer que a homeopatia não funcione
É verdade. Por mais absurda que a coisa toda possa parecer na teoria, é o que acontece na prática que conta. Se, apesar de nos fazer indagar sobre o grau de parentesco de Samuel Hahnemann com Ron L. Hubbard, a Homeopatia demonstrasse resultados clínicos convincentes, ninguém poderia falar nada. Mas um recente estudo de 110 experimentos clínicos concluiu que os resultados dos tratamentos homeopáticos foram indistinguíveis de placebo e bem menos expressivos que tratamentos da medicina “tradicional” para os mesmos problemas.
É geralmente nessa hora que os defensores de homeopatia recorrem a dois argumentos, diametralmente opostos: ou se trata de uma conspiração das grandes corporações farmacêuticas pra boicotar as alternativas; ou a Homeopatia não está sujeita aos padrões de evidência da ciência e medicina convencionais, por se tratar de uma ciência metafísica, e não empírica.
A primeira objeção reconhece a necessidade de evidências e metodologias objetivas e já foi abordada brevemente aqui, com mais por vir (provavelmente). A segunda faz bico e diz que não quer mais brincar.
Em primeiro lugar: decidam-se. O fato de que dois homeopatas praticantes que tiveram a mesmíssima educação podem ter idéias fundamentalmente opostas sobre a essência do que fazem não inspira a menor confiança.

Acima: medicina.
Segundo: a Homeopatia pretende ser medicina, e como tal tem – ou deveria ter – por objetivo a cura, o tratamento, a manutenção da saúde. Que é exatamente o que é avaliado em estudos clínicos de eficácia. Se o tratamento examinado nesses testes não produz resultados melhores do que pode ser esperado pelo efeito placebo, isso quer dizer que ele simplesmente não funciona. Não há meio termo, não há alternativa. Ou você tem Ebola ou não tem. O resto é desculpa.
O veredicto
Por fim, podemos concluir que a menina da notícia no início deste artigo morreu porque seus pais trataram seu eczema com quantidades irrisórias de água. E provavelmente nem em forma líquida foi, então nem sede isso resolveria.
Sinceramente, não sei se eles deveriam cumprir pena por isso. Mas não consigo entender porque as autoridades continuam deixando que “profissionais” receitem legalmente água com açúcar como tratamento médico, e que isso faça inclusive parte da política de saúde pública de países como o meu Brasil.
Homeopatia na Saúde Pública . . . Os custos do tratamento para o Sistema Único de Saúde são também sensivelmente menores.
Ah. Entendi.




















