Balela

Homeopatia, uma medicina sobre nada

Eu já planejava escrever sobre Homeopatia aqui, em algum momento, mas o caso recente dos pais que foram condenados por homicídio por terem “deixado sua filha morrer” ao tratá-la com homeopatia em vez de medicina “tradicional” trouxe o caso à atenção de pessoas que pediram que eu o abordasse logo.

Embora mortes decorrentes de não-tratamento médico em preferência de homeopatia estejam longe de ser um acontecimento raro, este caso foi especialmente dramático por se tratar de uma morte que já seria bem horripilante se tivesse acometido qualquer pessoa, mas que se tornou especialmente macabra por ter vitimado um bebê de apenas 9 meses de idade, que não teve nem liberdade de escolha sobre seu tratamento.

Sam é médico homeopata e tratou a filha sozinho, até que ela desenvolveu uma úlcera no olho esquerdo e foi levada a um hospital, dois dias antes de morrer . . . Quando morreu, Gloria pesava apenas dois quilos a mais do que quando nasceu, e seu cabelo, que era preto, havia se tornado branco. Sua pele estava coberta de feridas e ela sofria de uma infecção.

E esse evento tornou-se ainda mais digno de nota quando seus pais foram condenados por sua morte – e não por negligência, mas por quase-assassinato.

Vejamos então um pouco do que estava envolvido no caso.

Homeopatia: o homem e o mito

A Homeopatia alcançou sua popularidade inicial em um tempo em que a idéia de cura era provocar hemorragia e envenenamento por metais pesados; em que ainda não se sabia que lavar as mãos podia salvar vidas; em que medicina geral era praticada por barbeiros. Ou seja, em um tempo em que você tinha maiores chances de melhorar se não procurasse ajuda médica.

Em contraste, as pessoas que se tratavam com o alemão Samuel Hahnemann não costumavam morrer de infecção generalizada alguns dias depois da consulta. Qual era o seu segredo?

Em uma palavra: nada. Hahnemann não fazia absolutamente nada por seus pacientes. E isso, comparado com o que os outros faziam, já era muito.

Mais Zen que Buda.

Mais Zen que Buda.

Hahnemann baseava seus tratamentos em alguns preceitos fundamentais, o mais fundamental deles sendo o de que “semelhante cura semelhante”. Nesse momento você deve estar pensando que isso deve ser parecido com o princípio das vacinas: uma dose inerte de um agente patogênico é introduzida ao organismo pra ensinar seu sistema imunológico a lidar com o agente real, ativo, quando entrar em contato com ele. Como você é burro.

Na verdade, o que a “Lei dos Semelhantes” diz é que os sintomas apresentados por uma pessoa doente podem ser eliminados por substâncias que causam esses mesmos sintomas em uma pessoa saudável.

Oi.

Digamos que você esteja com diarréia. Que tipo de substância causaria diarréia em uma pessoa que não está com diarréia? Laxante. Logo, o remédio ideal pra sua diarréia seria um laxante.

Oi.

Oi.

Não! Calma. Isso seria completamente imbecil. É aí que entra o segundo preceito mais importante da Homeopatia: a “Lei dos Infinitesimais”. Na prática, este princípio defende que quanto menor for a concentração de uma substância, mais poderosa ela é em combater seus próprios efeitos. (oi)

Agora sim.

Agora sim.

Em outras palavras, uma substância que em certas concentrações causa certos efeitos, em concentrações “contrárias” causará efeitos “contrários”. Ou combaterá os efeitos que causa, ninguém sabe ao certo.

Em um Universo onde a Homepatia funciona, vejamos como esta lógica se aplica, por exemplo, à coniina; toxina responsável pelo poder venenoso da Cicuta:

grafico

Neste mesmo Universo, outra coisa maravilhosa ocorre: a água tem memória, e se “lembra” das substâncias com que manteve contato.

Infelizmente não é neste Universo que vivemos

Quando Hahnemann postulou que substâncias em concentrações diminutas eram capazes de provocar efeitos orgânicos, o físico italiano Amedeo Avogadro não estava por perto para avisá-lo que, conforme você dilui uma substância, em algum ponto a solução vai passar a não ter mais uma molécula sequer do princípio ativo original.

Princípios ativos são substâncias específicas selecionadas para interagir de forma específica com o que precisam interagir para causar o efeito específico desejado. A única substância específica em um remédio homeopático ordinário é H²O.

Solvente e remédio universal.

Solvente e medicamento universal.

Ao longo dos anos, defensores da Homeopatia fizeram várias especulações (cada uma mais mágica do que a outra) para explicar como é que pode uma porra dessas Batman: como pode água realizar o trabalho do ácido acetilsalicílico, nicotina, etanol, THC etc, só por ter entrado em contato com eles em algum momento?

peter

Empatia?

Também não há explicação satisfatória sobre por que a água se lembraria dessas substâncias em particular e esqueceria todas as inúmeras outras com que entrou em contato durante seu ciclo eterno, que inclui temporadas em organismos doentes, exposição a radiação e férias em esgotos do mundo inteiro.

Alguns sugerem que a resposta pode estar nos processos de “dinamização” e “sucussão”. Esses consistem em diluir a substância em água por agitar o vidrinho de forma vigorosa e metódica.

Eu sei que pra qualquer pessoa racional essas batidinhas já parecem ser o bastante (não?), mas o fato é que se algo assim fosse provado, seria uma revolução para a ciência e indústria da Física de maior importância que a realização do movimento perpétuo, e um fato de maior impacto para a ciência e indústria da Química do que um alisador universal de cabelos.

Ok, mas nada disso quer dizer que a homeopatia não funcione

É verdade. Por mais absurda que a coisa toda possa parecer na teoria, é o que acontece na prática que conta. Se, apesar de nos fazer indagar sobre o grau de parentesco de Samuel Hahnemann com Ron L. Hubbard, a Homeopatia demonstrasse resultados clínicos convincentes, ninguém poderia falar nada. Mas um recente estudo de 110 experimentos clínicos concluiu que os resultados dos tratamentos homeopáticos foram indistinguíveis de placebo e bem menos expressivos que tratamentos da medicina “tradicional” para os mesmos problemas.

É geralmente nessa hora que os defensores de homeopatia recorrem a dois argumentos, diametralmente opostos: ou se trata de uma conspiração das grandes corporações farmacêuticas pra boicotar as alternativas; ou a Homeopatia não está sujeita aos padrões de evidência da ciência e medicina convencionais, por se tratar de uma ciência metafísica, e não empírica.

A primeira objeção reconhece a necessidade de evidências e metodologias objetivas e já foi abordada brevemente aqui, com mais por vir (provavelmente). A segunda faz bico e diz que não quer mais brincar.

Em primeiro lugar: decidam-se. O fato de que dois homeopatas praticantes que tiveram a mesmíssima educação podem ter idéias fundamentalmente opostas sobre a essência do que fazem não inspira a menor confiança.

Acima: medicina.

Acima: medicina.

Segundo: a Homeopatia pretende ser medicina, e como tal tem – ou deveria ter – por objetivo a cura, o tratamento, a manutenção da saúde. Que é exatamente o que é avaliado em estudos clínicos de eficácia. Se o tratamento examinado nesses testes não produz resultados melhores do que pode ser esperado pelo efeito placebo, isso quer dizer que ele simplesmente não funciona. Não há meio termo, não há alternativa. Ou você tem Ebola ou não tem. O resto é desculpa.

O veredicto

Por fim, podemos concluir que a menina da notícia no início deste artigo morreu porque seus pais trataram seu eczema com quantidades irrisórias de água. E provavelmente nem em forma líquida foi, então nem sede isso resolveria.

Sinceramente, não sei se eles deveriam cumprir pena por isso. Mas não consigo entender porque as autoridades continuam deixando que “profissionais” receitem legalmente água com açúcar como tratamento médico, e que isso faça inclusive parte da política de saúde pública de países como o meu Brasil.

Homeopatia na Saúde Pública . . . Os custos do tratamento para o Sistema Único de Saúde são também sensivelmente menores.

Ah. Entendi.

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Pensamento Crítico

Introdução à fé: a última fronteira

Fé é um lance muito errado. Quer dizer. Em princípio, não há nada de errado em acreditar, por si só. É na parte de no que e por que se acredita que a coisa complica. E o conceito religioso/espiritual de “fé” só piora as coisas.

Por exemplo, vejamos o que a Bíblia tem a dizer sobre o assunto:

A fé é a firme certeza das coisas que se esperam; é a evidência daquilo que ainda não vemos.

Em outras palavras, fé é jogar na Mega Sena, mijar no chefe e gastar todas as suas economias hoje porque você tem a firme certeza de que amanhã estará milionário.

À primeira vista isso pode parecer uma deturpação de tão nobre sentimento, mas a verdade é que, movidas pela fé, pessoas regularmente tomam decisões igualmente drásticas com base em coisas muito mais dispendiosas e menos confiáveis do que um bilhete de loteria.

zangief

Clique na imagem para ver Deus no Youtube.

E o mais legal é que esse tipo de resolução deve ser uma virtude. Vejamos um clássico bíblico sobre a fé: a incredulidade de Tomé.

Jesus, morto há 3 dias, havia se cansado da invisibilidade de sua existência(?) espiritual e resolveu se revelar pros seus discípulos. Talvez até na esperança de conseguir alguém pra lhe fazer companhia do outro lado, quem sabe. Porque, né. Imagina. Que susto.

nazareno

Quando Jesus apareceu, os discípulos estavam reunidos em uma sala, se escondendo dos Judeus. Só que Tomé não tinha medo de nada nessa vida e não estava lá e nem se escondendo de ninguém. Ele provavelmente estava jejuando no Monte das Oliveiras, planejando sua vingança contra os Judeus, os Romanos e a Ísis, aquela vadiazinha. Quando voltou, os demais discípulos logo contaram-lhe o ocorrido, mas Tomé não era peixe morto e protestou: Não acredito, a não ser que veja as feridas dos pregos nas suas mãos, ponha os dedos nelas, e toque com a minha mão na sua ferida do lado.

Assim era Tomé, o Patrono dos Céticos. Aqui vemos um exemplo raríssimo de pensamento crítico na Bíblia: alguém pedindo algum tipo de evidência pra poder acreditar no que está ouvindo. Pra quê. Alguns dias mais tarde Jesus apareceu de novo, dessa vez com Tomé presente, e aproveitou pra esfregar as feridas na cara dele: Crês porque me viste, mas benditos os que não me viram e, mesmo assim, crêem.

tome

Jesus. Amigo. Olha o que você está dizendo. Isso seria tipo, sei lá, eu ver o saldo bancário do meu pai e dizer:

— PAI VOCE TEM 10 MILHÕES DE DÓLARES
— Meu filho eu sou pobre por que voce diz isso
— Porque a sua conta está VAZIA

Não dá, né.

[Nota do Editor: Não mesmo. Favor não utilizar analogias no futuro.]

Jesus se revelou primeiro pra Maria Madalena, e a instruiu a contar sobre o encontro para os discípulos. Presumivelmente, eles acreditaram nisso, e por isso são benditos (isso é uma referência a todos os que viriam a acreditar depois do ocorrido, mas também se aplica aos discípulos).

Mas veja bem: eles não acreditaram em Jesus, ou em sua volta à vida. Eles acreditaram na palavra de Maria Madalena. Mesmo que os discípulos acreditassem que era perfeitamente possível que Jesus voltasse dos mortos, e talvez até estivessem à espera de tal acontecimento, não é só porque alguém deu a notícia que isso quer dizer que realmente tenha acontecido, ou que tenha acontecido conforme relatado. Tudo que eles tinham pra acreditar era provavelmente uma mulher histérica que não falava coisa com coisa.

Da mesma forma, não foi de Jesus, ou mesmo da idéia da ressurreição, necessariamente, que Tomé duvidou. Ele pode ter duvidado da história conforme relatada pelos discípulos.

Pode parecer besteira, mas há uma diferença muito importante aí: são tipos diferentes de evidências, com pesos muito distintos. E eu acho que Jesus tinha plena consciência disso, pois quando realmente apareceu pros discípulos, “depois de os saudar, mostrou-lhes as mãos e o lado”. Mas depois, pra Tomé, Jesus insinua que esse contato imediato, em primeira pessoa, deve ter o mesmo peso que relatos de terceiros. E o mesmo conceito é demonstrado em outra passagem.

Nela, Jesus conta a história de um homem rico que morreu e deu por si em um lugar de tormento eterno por ter vivido sua vida no prazer e no luxo. Que pecado.

scarpa

Aterrorizado com sua situação, o ricaço tenta convencer o patriarca Abraão a enviar alguém de volta do além para avisar seus irmãos, ainda vivos, a não cometerem o seu erro (viver no prazer e no luxo), pra que não terminem onde ele está. A isso, Abraão responde: Eles tem as Escrituras de Moisés e dos profetas. Que ouçam os seus avisos.

O rico provavelmente achou que Abraão estava surdo e emendou: Não, pai Abraão. Se alguém de entre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão.

Acho válido. Se Carl Sagan inequivocadamente voltasse dos mortos pra anunciar a segunda vinda de Jesus, eu ficaria muito mais inclinado a considerar a veracidade dessa afirmação do que se ouvisse o mesmo do pastor que metralha os pés das crianças, por exemplo.

tiros

Clique na imagem para ver um argumento convincente no Youtube.

Mas, falando por Abraão, Jesus arremata: Se eles não ouvem Moisés e os profetas, não ouvirão nem mesmo alguém que se tenha levantado de entre os mortos.

Porque com Jesus é assim: ou você acredita em tudo, ou não acredita em nada. Não existem gradações de credibilidade, estimadas conforme a plausibilidade da fonte e natureza da situação. Só existem dois tipos de pessoas: as que acreditam, e as que vão pro inferno.

Mas Jesus não faz por mal. Isso é só porque ele é o cara MAIS INTENSO, que VAI ATÉ O FIM em TUDO QUE FAZ, e ainda VOLTA. E ele espera nada menos do que isso de você.

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Clique na imagem para ver um embate teológico no Youtube.

Assim, nós vemos que ter fé, no sentido bíblico, não só é basicamente acreditar sem base nenhuma pra isso (ou com a idéia bíblica de base, o que dá no mesmo), como é também uma grande virtude; talvez a mais importante delas. E, como foi dito em várias outras passagens ao longo da Bíblia, quanto mais fé uma pessoa tiver, melhor.

Ou seja: quanto mais absurda for uma idéia, de mais fé você precisa pra acreditar nela, e quanto mais fé você tiver, mais foda você é, aos olhos de Deus.

Então você pode bater no peito e dizer, pleno de orgulho: Caralho, eu acredito em coisas que ninguém em sã consciência acreditaria. Eu sou tão piedoso que não tem nem graça. O Reino dos Céus tem recompensas maravilhosas pra mim.

theo

E esse é irmão desse.

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Caçadores de Aventuras

Onde milagres vão para morrer

Sabe quando uma cantora gospel canta razoavelmente não tão mal, e diz que era Deus cantando através dela? Mesmo? Eu esperaria que o melhor cantor possível no Universo fosse fazer melhor do que só não estragar demais a música.

maravilha

Ou quando; alguns dias depois de um terremoto ter destruido uma cidade inteira, matando milhares de pessoas; um bebê é encontrado entre os escombros à beira da morte, e dizem que foi Deus que o manteve vivo? Quebrado, desidratado e órfão; mas vivo. Olha, eu espero que essa criança cresça pra achar a cura do câncer ou coisa do tipo.

terremoto

Ou quando um avião com mais de cem pessoas cai e uma ou duas sobrevivem, com queimaduras de terceiro grau em mais de 90% do corpo — e isso é um milagre?

divindade

Parece que as pessoas têm expectativas baixíssimas sobre onipotência. Eu não. Assim, de vez em quando irei investigar relatos de milagres divinos e ver como eles se sustentam frente às evidências e aos padrões de magnificência que seriam de se esperar de um ser onipotente e onisciente.

Esta série irá se chamar Caçadores de Aventuras, e começará agora.

O evento

Temporal e ventanias causam grandes estragos em Santa Catarina

O milagre

Pai e filha são salvos pela mão de Deus.

Como aconteceu

Emocionado, o pedreiro Valdir Martins conta que salvou a filha durante a ventania. As paredes de casa estavam desabando quando ele conseguiu alcançar a criança. “Eu me agachei embaixo da cama. [O vento] estava arrebentando tudo. Nem tenho explicação. Acho que foi a mão de Deus que nos tirou de lá”, disse ele. “Peguei ela embaixo do braço, segurei pela mão e o vento estava nos levando.”

Pra começar, eu não faço nem idéia do que ele está querendo descrever. “Peguei ela embaixo do braço, segurei pela mão”… tão aí duas ações que eu não consigo imaginar ocorrendo em harmonia, por exemplo. Mas pela imagem geral que eu consegui montar, o que parece ter acontecido foi o seguinte:

  1. Ventava tanto que “as paredes da casa estavam desabando”.
  2. Valdir ‘alcançou a criança’ debaixo da cama e ficou lá com ela, ou:
    1. Valdir pegou a criança e foi se refugiar debaixo da cama com ela.
  3. Valdir não sabe explicar como, mas sua filha e ele foram conduzidos em segurança para fora da casa desabante carregados pelo vento. MILAGRE.
    1. Valdir não se lembra direito de como saiu da casa, mas pode ter alçado vôo em algum momento. MILAGRE.

O que quer que tenha acontecido, certamente foi algo digno de Michael Bay.

michael

Como poderia ser melhor

Trata-se de um acontecimento deveras acachapante, e numa situação dessas não há nada mais normal do que ter uma percepção menos que perfeita do evento. Ainda assim, há de se considerar que milagre mesmo seria…

1. …se todas as edificações da cidade permanecessem intactas e secas apesar do temporal e ventania dignos do filme Twister. Ou no mínimo a casa de Valdir.

2. …se, conforme a casa se esfarelava, seus destroços fossem se juntando ao redor de Valdir e sua filha, formando um casulo de proteção com paredes acolchoadas, luz elétrica, saneamento básico, etc.

3. …se Valdir e sua filha nem tivessem tomado conhecimento da tragédia porque estavam tomando café com um mendigo que na verdade era o Anjo da Destruição e havia resolvido poupar a casa de quem se mostrasse hospitaleiro a um velho sujo e fedido.

É só quando vai abrir a porta pro mendigo ir embora que Valdir percebe o caos. Ele se vira pra expressar seu assombro com o convidado e ELE NÃO ESTÁ MAIS LÁ.

Se não foi um milagre, como você explica o que aconteceu?

E o que foi que aconteceu, meu amigo. Nem o Valdir sabe. Mas vejamos outras cadeias de eventos (mais prováveis) que poderiam produzir os mesmos resultados descritos:

1. Valdir ficou tão desesperado que fez o que quer que tenha feito, ou passou pelo que quer que tenha passado, sem pensar, não criando, portanto, memória segura ou mesmo realista do evento. Além disso, durante a entrevista ele ainda poderia estar em choque/atordoado/embasbacado.

2. Tudo não passou de um sonho.

3. Valdir é esquizofrênico e nem filha tem.

Valdir, aquele abraço.

Valdir, aquele abraço.

Levando tudo em consideração, a probabilidade deste caso se tratar de um milagre resultante do Envolvimento Direto Do Onisciente e Onipotente Criador e Mestre Supremo do Universo é de:

1/5 Taz de 16

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Balela

Interbarney em Desencanto

É um tanto quanto intimidador fazer um blog de ciência, pensamento crítico e conhecimento geral em uma central de blogs primariamente de humor, mas como Eduardo Dusek mostrou que é possível falar de coisas importantes com música, humor e irreverência, resolvi me arriscar.

Um misto de cabaré e stand-up comedy.

Um misto de cabaré e stand-up comedy.

[Nota do Editor: Não é o Eduardo Dusek.]

Infelizmente, a estréia não terá como ser muito divertida, pois este post inicial será sobre o icônico Patrick Swayze, que morreu anteontem vítima do câncer — fato que tocou o mundo do entretenimento e estourou a veia cômica que existe em todo brasileiro.

via @ezulian

via @ezulian

via @ibere

via @ibere

Quando recebeu o diagnóstico de câncer pancreático em estado avançado, Patrick sabia que estava ouvindo sua sentença de morte: este é talvez o câncer mais letal de todos. 5 anos após o diagnóstico, menos de 5% dos pacientes ainda estão vivos, e mesmo entre a minoria que pode ser operada, a expectativa média de vida após a operação é de 12 a 19 meses. Ele teve muita sorte em ter sobrevivido 20 meses após o diagnóstico sem intervenção cirúrgica.

Mas o objeto desse post é uma declaração que Patrick deu em uma entrevista à Barbara Walters no início do ano:

Se alguém tivesse essa cura, como muita gente jura que tem, [esse alguém] seria duas coisas: muito rico, e muito famoso. Caso contrário, calaboca.

, Patrick está se referindo às curas milagrosas da chamada “Medicina Alternativa”. Ele sem dúvida deve ter recebido muitos e-mails não solicitados dos abutres curandeiros que se aproveitam de celebridades com câncer para promover sua pajelança. E, mesmo no desespero da sua situação, fez bom uso de suas faculdades mentais para reconhecer balela, e então rejeitá-la.

cérebro x-------------------- medo

cérebro x-------------------- medo

Um dos argumentos clássicos dos proponentes de terapias alternativas é o de que elas enfrentam ceticismo porque de uma forma ou de outra contrariam interesses financeiros da Big Pharma, o conglomerado amorfo de corporações farmacêuticas Do Mal.

Embora seja verdade que indústrias farmacêuticas muitas vezes fazem coisas anti-éticas, e até mesmo cruéis, elas o fazem porque – temos de reconhecer – adoram dinheiro. E o fato é justamente que qualquer um que conseguir demonstrar inequivocadamente que tem uma cura para (qualquer dos vários sabores de) câncer — um dos top 5 assassinos da humanidade —, vai ganhar muito dinheiro.

O detentor dos direitos sobre o câncer aviário.

O detentor dos direitos sobre a cura do câncer aviário.

Portanto, qualquer pessoa que tenha acompanhado os lançamentos de Hollywood nos últimos anos é capaz de inferir que, se você tem uma cura alternativa para o câncer que realmente funciona, sua maior preocupação não é ser ridicularizado: é ficar vivo. Porque a Big Pharma não vai descansar enquanto não tiver te matado e roubado sua fórmula; justamente pra fazer fortuna sozinha.

Aliás, a menção de Hollywood e grandes interesses corporativos me sugere um paralelo.

Todos sabem que para os grandes estúdios de Hollywood, o cinema não é uma arte; é um negócio. Quando confrontados com a recente popularidade do cinema alternativo, estes grandes estúdios imediatamente passaram a desacreditar e perseguir os filmes independentes, certo?

Errado. Ok, podem até ter feito isso, mas o fato é que os grandes estúdios também passaram a investir no cinema alternativo. E o mesmo se dá com a relação que as grandes gravadoras de música tem com os artistas independentes que fazem música alternativa: se algo dá certo, é assimilado. Ou seja, se você não pode vencer seu inimigo, vá atrás de uma parcela de seus lucros por unir-se a ele.

E com a ciência ou medicina “tradicionais” acontece exatamente o mesmo. O que não surge nos laboratórios, mas funciona, é assimilado. O que não funciona é descartado, independente de onde vem. E há um exemplo bem relevante disso.

Há alguns anos um certo Dr. Gonzales afirmou ter desenvolvido um tratamento alternativo para câncer que envolve uma dieta rigorosamente controlada, mais de 150 pílulas por dia, e freqüentes enemas de café. Eu juro.

A primeira bateria de experimentos clínicos pra verificar a eficácia dessa tortura desse tratamento – batizado de Gonzales Protocol, ou Gonzales Regimen – foi patrocinada por nomes como Nestlé e Procter & Gamble. O que é um pouco assustador, pois seria como a Globo investindo na Record, sei lá [NE: trabalhar as analogias], mas pelo menos mostra que existe interesse de grandes corporações em investigar as afirmações da medicina alternativa (nem que seja pra matar quem teve a idéia e então roubá-la).

Essa primeira fase, apesar de bem mal feita (apenas 11 pessoas foram testadas, quando testes de rigor científico geralmente exigem no mínimo algumas dúzias de espécimes pra ter alguma relevância), deu “tão certo” que um segundo estudo, mais rigoroso (mas nem tanto), foi encomendado. Dessa vez pelo próprio Instituto Nacional do Câncer estadunidense.

Esse estudo foi feito justamente com vítimas do câncer pancreático que eliminou nosso ídolo. Ele começou em 1999 e terminou em 2005, mas seus resultados só foram publicados semana passada. Por que a demora?

Em suma, o estudo teve de ser interrompido porque os pacientes submetidos ao Gonzales Protocol estavam morrendo descontroladamente.

Em testes de novos tratamentos com base científica, o esperado é que o novo tratamento seja um pouco melhor que o tradicional, ou que pelo menos não faça muito feio. Mas o Gonzales Protocol em alguns momentos chegou a ser até 3x mais ineficiente que o tratamento tradicional, envolvendo quimioterapia.

Na tradição chinesa, amarelo é a cor da morte.

Na tradição chinesa, amarelo é a cor da morte.

[NE: Não é.]

É como se o gráfico mostrasse a curva dos pacientes de câncer pancreático recebendo tratamento (em azul), comparados com os que não recebiam tratamento nenhum (debaixo da terra). Não é de se estranhar que os proponentes do tratamento não tinham pressa alguma pra divulgar estes belíssimos resultados.

Por fim, tivesse Patrick fraquejado e se agarrado a qualquer promessa de vida para salvar ou prolongar a sua, ele poderia ter vindo a experimentar o Gonzales Protocol (dentre inúmeros outros tratamento igualmente ineficazes), e a morrer muitos meses mais cedo.

E com isso concluímos a lição de hoje: sempre desconfie de pessoas promovendo curas e tratamentos que são “alternativos” devido a algum tipo de “boicote” da indústria farmacêutica. Medicina Alternativa que funciona deixa de ser Alternativa e vira apenas Medicina. Como o Muse. [NE: É sério com essas analogias.]

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